Ao homem que se assumiu régio

Nos últimos dias, referências, episódios e textos lembraram-me esse homem que nunca chegarei a conhecer.
O post da Prima, falando da via "endoauricular", os do Xavier do Saúde,SA, transcrevendo Xena Antunes e denunciando o insucesso escolar, a crónica deste sábado de Faria Costa sobre o necessário ensinamento para qualquer abordagem à estética, o lançamento do livro “Largos Dias…” em que o autor disse José Régio…
Foi como que uma conjugação feliz de coincidências, sendo certo que elas não transmitem qualquer sinal nem, sequer, existem senão em função da experiência que julgamos ter.
Pero que las hay, las hay…
Era inevitável que a espuma destes dias me obrigasse a uma – bem modesta – homenagem.
Primeiro admirador de Pessoa, esse homem - de porte elegante, sóbrio na aparência e algo distante, mas distinto no trato - fez o liceu no Porto, o curso em Coimbra e deu aulas a uns quantos privilegiados alunos de Portugal, enquanto coleccionava arte sacra e escrevia prosa (alguma não publicada) e poesia de atormentada genialidade.
Tenho por ele uma imensa estima e uma admiração quase acrítica, porque o amei sem sequer supor que existisse.
Ainda criança, pedia histórias para adormecer. A minha mãe – pouco dada a carochinhas – tinha uma memória elefantina e (apenas quase nesse aspecto) uma pachorra invejável.
Escolhia, então, do seu vasto repertório, poemas que contavam histórias e, numa voz macia e viva, dizia... e como dizia!
Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um infante que viria
De além do muro da estrada…
… … …
Olhámo-nos um dia,
E cada um de nós sonhou que achara
O par que a alma e a cara lhe pedia…
… … …
Ora isto, Senhores, deu-se em Trás-os-Montes,
Em terras de Bouro, com torres e pontes…
… … …
Num meio-dia de fim de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia…
Eram sempre dois ou três, mas quando nos perguntava qual o último que queríamos, o favorito era "O poeta doido, o vitral e a santa morta".
As "histórias", ao invés de nos embalarem, faziam-nos sonhar, em exultante encantamento.
Não estou apenas grata a esse grande homem que aqui há 35 anos contava com uns escassos 15 dias para viver: reproduzi o modelo com o meu filho.
Ainda agora, quando ele se distrai no beijo da noite, vou chateá-lo à cama para "irritantemente" lho exigir em dobro com multa e – quando a hora ainda não é "do medo" – um de nós, de quando em vez, inicia um poema qualquer que dizemos em uníssono, pelo puro gozo da coisa.
Hoje, pelas circunstâncias que me obrigaram a esta chatíssima palavra, escolho eu:
Era uma vez um Poeta
Que vivia num Castelo,
Num Castelo abandonado,
Povoado só de medos…
- Um Castelo com portões que nunca abriam,
E outros que abriam sem ninguém os ir abrir,
E onde os ventos dominavam,
E donde os corvos saíam,
Para almoços
Que faziam
De mendigos que caíam lá nos fossos…
Ao homem que se assumiu régio e à minha mãe, obrigada.
Nota: Sou alheia ao facto de neste poema se espelhar um enredo que, só por coincidência, se assemelha à crise que tem atravessado o nosso país, mas tenho esperança que algumas cabeças degoladas façam, finalmente, despertar a santa nação adormecida.
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